Sobre Gregório

Há muito tempo, na época dos avós de nossos avós…

Por Tania Machado.

“Há muito tempo, na época dos avós de nossos avós…”. Assim começam muitas histórias que Francisco Gregório Filho conta em suas oficinas pelo Brasil afora. Conta histórias e estimula muita gente a contar as suas próprias, imprimindo a cada palavra significados que vão além do dito. É assim, encantando pessoas, compartilhando experiências, ensinando formas, gestos, e, principalmente, buscando disseminar nossa riqueza cultural e fortalecer nossa identidade plural, que esse viandante encontrou seu lugar no mundo.

Francisco Gregório Filho

A trajetória profissional de Gregório Filho é pautada essencialmente pela atuação no meio cultural, um trabalho intenso em prol de uma política cultural pública, de formação de leitores, de espaços de cidadania.  Ator, diretor, gestor de programas e projetos culturais nas áreas de música, rádio e teatro, mediador de leitura, escritor, professor.  Participou da equipe de criação do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler), tendo sido seu primeiro coordenador (1992 a 1996). Em Rio Branco, capital do Acre, foi gestor cultural em diversas instituições públicas nas décadas de 1970, 80 e na primeira década de 2000; aí criou uma rede de Casas de Leitura e ganhou nome de rua dada pelos próprios moradores – Rua Gregório Filho –  em 1982, no bairro Chico Mendes. Implantou a primeira Secretaria Municipal de Promoção da Leitura no Brasil, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro. Tem título de Notório Saber pela PUC/RJ; foi condecorado com a Medalha da Ordem ao Mérito do Livro, conferida pela Biblioteca Nacional; pesquisador da Unesco / PUC/RJ; é membro da Academia Acreana de Letras (2011) e foi condecorado com a Ordem do Mérito Cultural Acreano (2013). É funcionário aposentado da Fundação Biblioteca Nacional, após 40 anos de serviços públicos. Da produção à difusão, da criação à representação, a mesma delicada e firme atuação de um homem com compromisso social. Este é o acreano Francisco Gregório Filho.

Sua história

Por Tânia Machado.

Francisco Gregório Filho nasceu em Rio Branco, Acre, no dia 30 de março de 1949. Cresceu por entre os bairros da Capoeira, Cerâmica e o Centro da cidade. Frequentou a Escola Infantil Menino Jesus e a Escola Primeiro de Maio, onde completou o primário. Iniciou o ginásio no Colégio Nossa Senhora das Dores e concluiu no Colégio Acreano. O secundário foi iniciado na Escola Técnica de Comércio Acreano, mas foi no Rio de Janeiro, na Escola Técnica de Botafogo, que se diplomou contador. Em 1975 formou-se em Artes Cênicas na Escola de Teatro da Federação das Escolas Federais Isoladas do Estado do Rio de Janeiro (Fefierj), atual Unirio.

“Francisco Gregório da Silva Filho, disse minha mãe quando eu nasci.

Eu, primeiro Filho. Cabe a mim construir uma história como sujeito em Francisco. Diariamente me construo sujeito da história desse Francisco de nome, desse Gregório de referência familiar, desse da Silva do repertório comunitário e do Filho dos acervos pessoais de meu pai e de minha mãe.”

(Lembranças Amorosas, 1997)

Nos idos da década de 1960, em Rio Branco, participou de diversos grupos de teatro, tendo sido inclusive secretário geral da Casa do Estudante do Acre. Quando a família se mudou para o Rio de Janeiro, em 1968, participou ativamente do Teatrinho Azul e dos movimentos artísticos do Museu de Arte moderna (MAM).

Em 1972, criou o grupo Ensaio de Teatro, com o qual participou da montagem do espetáculo “Aquele que diz sim e aquele que diz não”, de Bertold Brecht. O espetáculo foi apresentado em diferentes universidades, até em clubes de Rio Branco, Acre. Nesse mesmo período integrou o elenco do musical “Em torno da palavra homem”, uma coletânea de poetas brasileiros. Em 1973, dirigiu e atuou em espetáculos com grupos de jovens em diversos municípios do Acre. Ainda nessa época, desenvolveu programas nas rádios Difusora e Andirá.

Em 1974, dirigiu os ensaios da peça “Como castrar seu porco chauvinista ou só engorda quem negocia”, de Marcílio Moraes, que foi proibida pela censura no dia de sua estreia. Anda nesse ano, apresentou a peça “O ator com cara de bolacha versus Mimi fla-flu”, também de Marcílio Moraes, em teatros da cidade do Rio de Janeiro.

De 1976 a 79, participou ativamente do movimento cultural de seu estado natal: produziu e apresentou o programa Perfil Contemporâneo, na rádio Difusora, e o programa Momento Experiência, na rádio Andirá; também participou da criação do cineclube Aquiry, tendo sido seu primeiro diretor. Com o grupo Ensaio de Teatro, dirigiu a atuou as peças “A cigarra e a formiga”, “ZYH apresenta mensagem e melodias”, e “A floresta negra e dona Margarida”.

Nessa época, foi diretor geral do Departamento de Assuntos Culturais da Secretaria de Educação e Cultura do Estado e secretário do Conselho Estadual de Cultura. De 1978 a 79 acumulou ainda a função de diretor da rádio Difusora Acreana. No primeiro semestre de 79, exerceu a função de Gerente de Bem Estaqr Social do SESC.

De volta ao Rio, no final de 1979, integrou a equipe da Coordenadoria de Assuntos Artísticos da Secretaria de Assuntos Culturais do MEC, onde permaneceu até 1981. Em 1982, assumiu  a coordenação de Teatro Amador do Instituto Nacional de Artes Cênicas (Inacen), aí permanecendo até 1987. Simultaneamente participou do projeto Interação entre a Educação Básica e os Diferentes Contextos Culturais existentes no país, desenvolvido pela Secretaria de Cultura do MEC.

Foi então convidado para presidir a Fundação de Cultura e Desporto do Acre, cargo que exerceu até março de 1990. Durante esse período, produziu na rádio Difusora o programa “Aboio – canto de reunir”. Foi também vice-presidente do Fórum Nacional de Secretários de Cultura.

Retornou ao Rio em 1990, para coordenar a área de teatro do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura (Ibac), do Ministério da Cultura. De 1982 a 96, a convite da Fundação Biblioteca Nacional, integrou a equipe que criou o Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler), tendo assumido a coordenação da Casa da Leitura (sede do Proler) em 93.

Em 1997, passou a integrar a equipe do setor educativo do Centro Cultural Paço Imperial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), onde desenvolveu atividades de contação de histórias e práticas de leitura. Também produziu e dirigiu espetáculos musicais e de teatro, além de ter participado de inúmeros seminários, fóruns, simpósios e encontros de leitura e literatura. Inseriu a sua paixão pelas pipas nas oficinas e passou a contar histórias fazendo pipas. Pipas feitas de tecidos, botões, rendas, bordados, provas testemunhais de sua biografia. O acervo ficou tão vasto que se transformou em exposição.

A partir de 2004 retornou ao Acre para exercer o cargo de presidente da Fundação Cultural Elias Mansour, onde permaneceu até início de 2006. Realiza a 1º Conferência de Cultura; insere os artistas acreanos no Projeto Pixinguinha; amplia a verba destinada à cultura no estado; inicia a construção da sede da Fundação, cria e apresenta os programas “Se Esta Rua Fosse Minha”, na Rádio Difusora, e o “Almanaque Aldeia”, na Rádio Aldeia. Ambos têm a proposta de levar informação cultural à população e resgatar músicas populares e folclóricas. Foi nessa época que Gregório conheceu a Rua Gregório Filho, no bairro Chico Mendes, nomeada pelos próprios moradores desde 1992.

Em 2006, em reconhecimento aos seus méritos, recebeu a Medalha de “Ordem do Mérito do Livro”, conferida pela Biblioteca Nacional. Posteriormente foi convidado como um dos pesquisadores da Cátedra Unesco de Leitura, na PUC/RJ. Retornou para o Paço Imperial, aí permanecendo até início de 2010, quando recebeu o desafio de implantar a primeira Secretaria de Promoção da Leitura do país, em Nova Friburgo, RJ. Em 2011 tornou-se membro da Academia Acreana de Letras. Neste mesmo ano retornou para a Fundação Biblioteca Nacional para compor a equipe do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, até se aposentar em 2013.

Atualmente Gregório tem se dedicado às oficinas de contação de histórias e promoção da leitura em todo o Brasil. Gregório ensina o ofício por dentro e por fora, a partir de informações teóricas e práticas, de escolha de repertório e acervos pessoais, passando pela expressão corporal, indicações bibliográficas e apresentação pública. A arte de contar histórias é, na verdade, um instrumento para desenvolver o prazer de narrar e de ler, de mediar a realidade, reinterpretando-a. Suas oficinas são direcionadas a educadores sociais, professores, estudantes e profissionais de diferentes áreas. Ou apenas àqueles que querem ouvir boas histórias. Gregório é convidado a contar histórias em diversos espaços: palácios, museus, centros culturais, bibliotecas, universidades, escolas, estações de trem, de metrô, centros comunitários, igrejas, embarcações fluviais, aldeias indígenas, centros quilombolas etc.

Atualmente Gregório, a convite do Sesc e Sesi, também desenvolve oficinas nos programas de criação literária e contação de histórias em eventos em todo o país.

Gregório é casado com a educadora Lucia Yunes. Tem um filho, de seu primeiro casamento, também Francisco Gregório, agora Neto, carinhosamente chamado de Kiko.

O Escritor

Gregório já escreveu e publicou livros dedicados ao tema da leitura e da contação de histórias. Seus livros procuram dar conta das muitas histórias vividas e escutadas pelo Brasil afora.

O primeiro deles, “Guardados do Coração – Memorial para Contadores de Histórias”, a seguir “Grávidas histórias – Memorial de Notícias de mulheres do Brasil”, ambos de 1998, editados pela Amais Livraria e Editora Ltda. Estes dois livros estão atualmente esgotados, mas ainda podem ser encontrados na Estante Virtual.

A seguir escreveu “Difícil passagem” – 1ª edição 2003, 2ª edição 2005, 3ª edição 2006, pela Santa Clara Editora Produção de Livros Ltda. Também esgotado, pode ser encontrado na Estante Virtual.

“Lembranças amorosas” teve sua primeira edição em 2000, e reimpressão em 2008, pela Global Editora e Distribuidora Ltda.

Em 2006 a Rocco publicou “Dona Baratinha e outras histórias”.

Seu mais recente livro, “Ler e contar, contar e ler – caderno de histórias” foi lançado em 2008 e reeditado em 2011.

Também escreveu os artigos “Oralidade, afeto e cidadania” e “Práticas leitoras: vivências de um contador de histórias” no livro “Pensar a leitura: complexidade”, organizado por Eliana Yunes e editado pela Loyola; “Jabuti sabe ler e precisa escrever” na Revista LeituraS nº 1, de novembro de 2006, publicada pelo Ministério da Cultura; e “Arraial alheio” em Vivências de Leitura, organizado por Jason Prado e Julio Diniz, editado pelo Sesc Rio e Leia Brasil, em 2007; e inúmeras crônicas no jornal A Voz da Serra, de Nova Friburgo, quando dividia o Espaço de Leitura com Maria Clara Cavalcanti.

Gregório, o que é contar histórias?

Para Gregório, uma de suas motivações para trabalhar com oficinas de contação de histórias foi ter observado as dificuldades das pessoas para colocar a voz em um texto que o outro possa ouvir com clareza e prazer. “Narrações precisam de respiração, pausas, inflexões vocais, colorido e brilho sugeridos pelas palavras evocadas e constituintes de um bom texto”, explica.

Segundo ele, ouvir e contar histórias pode nos ajudar no exercício de tolerância e no convívio com o outro, o diferente. “Melhoramos na relação com o outro e com os diferentes grupos sociais e conquistamos nossa humanidade plena”, afirma. Gregório acredita que a estética e a ética apuradas nas diversas circunstâncias vividas pelos personagens das histórias trazidas a nós na leitura de um conto, de uma imagem e ainda, de uma música, ajudarão certamente no posicionamento crítico e inventivo de cada um de nós diante das adversidades em nossas trajetórias de vida. “Enriquecemos na capacidade de discernimento e empreendemos ações sustentáveis para a qualidade de vida. Para rir, brincar e criar laços afetivos com as pessoas queridas”.

Para o contador de histórias, ler é um ato que influencia positivamente a vida de qualquer pessoa: “A leitura pode ajudar na qualidade das escolhas; no discernimento dos fatos; na convivência com a poesia; na construção de ações solidárias e responsáveis; no respeito aos direitos e deveres para com o outro; na difusão de conhecimentos; na capacidade de se expressar e produzir sentidos para a vida”, conclui.